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Reservas particulares do patrimônio natural do Brasil


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A Reserva Rio das Furnas está inserida num canyon no Alto da Boa Vista, em Alfredo Wagner. É a primeira RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural) da região, constituida em 2002, através da Portaria IBAMA nº 61, de 16 de abril de 2002. Faz parte do divisor de águas mais importante do Estado de Santa Catarina, área de tangência entre as Bacias dos rios Tijucas, Cubatão, Tubarão e Itajaí. Possui 7 cachoeiras, diversas nascentes e um sítio arqueológico. Com mais de 200 espécies de aves identificadas, é a primeira Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) da região, desde 2002. Birdwatching (Observação de Aves), Pesquisas e Educação Ambiental são algumas atividades desenvolvidas na Reserva Rio das Furnas.


Toda a propriedade foi integrada, em janeiro de 2009, ao “Programa Desmatamento Evitado”, idealizado e executado pela SPVS, que tem como estratégia de ação a construção de alianças entre empresas e proprietários de florestas bem conservadas. Estas alianças culminam com a adoção dos remanescentes florestais por empresas (adotantes), beneficiando os proprietários rurais (adotados), propiciando a manutenção e conservação dos ecossistemas nativos.


O principal curso d’água existente na propriedade é o Rio das Furnas com uma largura aproximada de cinco metros ao longo do seu percurso dentro da RRF. Ele atravessa a RRF dividindo a área em dois setores (margem esquerda e direita). Na época das chuvas a água torna-se turva, limpando-se rapidamente em seguida. No entanto, a turbidez é reduzida devido à preservação da cobertura vegetal no interior da propriedade.
O Rio das Furnas é alimentado por afluentes diversos, muitos deles provindos de áreas de pastagens e povoamentos de pinus. Por se situar em área de cânion, alguns afluentes do Rio das Furnas formam diversas cachoeiras na RRF. Estas constituem um importante atrativo cênico para a RRF, pois nascem nas bordas do cânion apresentando belas quedas, em média com 80m de altura. Ao total são sete cachoeiras que se formam
permanentemente.


O plantio de pinus e a degradação por pastagens em áreas de campos naturais vizinhas à Reserva Rio das Furnas consiste em um grande impacto em relação à manutenção dos cursos hídricos que brotam nos arredores da propriedade. Os campos e outras áreas naturais localizadas acima da escarpa do cânion da RRF, assim como em áreas de nascentes nos arredores, têm função de recarga, manutenção e filtragem da água do solo. Dessa forma, a invasão por espécies exóticas como o pinus e a degradação dessas áreas, podem influenciar negativamente em um futuro próximo, a qualidade e quantidade de água, assim como representar riscos à biota em geral.


Caracterização Fitogeográfica


A RRF insere-se no domínio do Bioma Mata Atlântica, sendo caracterizada pela situação de contato entre a Floresta Ombrófila Mista (Floresta com Araucária) e a Floresta Ombrófila Densa (Floresta Atlântica).
Com base em critérios altitudinais, Leite e Klein (1990) apontam as formações de Floresta Ombrófila Mista ocorrentes acima dos 800 metros como sendo mais típicas e representativas. Deste modo, tendo em vista que a RRF situa-se em altitude média de 750 m s.n.m., não existem na área protegida comunidades típicas de Floresta Ombrófila Mista. Da mesma forma, a posição geográfica bastante interiorizada implica condicionantes climáticas diferenciadas, que acabam por impedir também a ocorrência de uma Floresta Ombrófila Densa típica. Trata-se, portanto, de uma plena região de contato entre as tipologias, fortemente condicionada à posição encaixada da área protegida, dentro do cânion do Rio das Furnas, que proporciona condições microclimáticas bastante particulares.


Florística


Tendo em vista o tempo curto destinado à caracterização florística em campo, considerando que inventários aprofundados da flora devem ser realizados em períodos de pelo menos um ano, alcançou-se um número considerável de espécies vegetais detectadas na RRF. O levantamento florístico abrangeu 243 espécies nativas pertencentes a 168 gêneros e 95 famílias botânicas. Além destas, foram registradas dentro dos remanescentes de vegetação nativa, 16 plantas exóticas originárias de outros ecossistemas no Brasil ou no Mundo e cinco espécies cuja origem é desconhecida. Por fim, outras 18 espécies exóticas foram registradas no entorno da sede, em área antropizada de jardim e pomar.
Sob o ponto de vista da riqueza específica, considerando apenas as espécies que ocorrem naturalmente na área protegida, destacam-se as famílias Myrtaceae, Asteraceae e Lauraceae, respectivamente com 17, 13 e 12 espécies cada. Também são importantes: Bromeliaceae (11), Solanaceae, Polypodiaceae e Fabaceae (9 cada), e Melastomataceae (7). Estas oito famílias abrangem cerca de 35 % do total de espécies nativas registradas.
Do montante total de espécies nativas registradas, apenas 4,9% são preferenciais ou exclusivas da Floresta Ombrófila Mista, enquanto 4,5% são preferenciais ou exclusivas da Floresta Ombrófila Densa. As demais se caracterizam por ocorrerem facultativamente nas duas regiões fitogeográficas (algumas deste grupo tiveram sua área de ocorrência indeterminada). Isto é comum em uma zona de contato, onde predominam espécies de maior plasticidade adaptativa que se distribuem naturalmente pelas duas tipologias envolvidas. Ainda assim, verifica-se de forma sutil, uma maior influência da Floresta Ombrófila Mista, pela maior representatividade estrutural das espécies indicadoras ocorrentes.
Como preferenciais ou exclusivas da Floresta Ombrófila Mista, destacam-se: Lithraea brasiliensis, Araucaria angustifolia, Baccharis uncinella, Berberis laurina, Cinnamomum sellowianum, Nectandra lanceolata, Lafoensia pacari, Mimosa scabrella, Myrrhinium atropurpureum, Escallonia montevidensis, Styrax leprosus e Lantana fucata. Os representantes preferenciais ou exclusivos da Floresta Ombrófila Densa na RRF são: Aspidosperma pyricollum, Aechmea blumenavii, Aechmea ornata, Calyptranthes grandifolia, Vriesea gigantea, Alchornea triplinervia, Myrocarpus frondosus, Talauma ovata, Phytolacca dioica, Podocarpus sellowii eTrema micrantha.
Devido à geologia de origem e ao posicionamento geomorfológico, a RRF apresenta relevantes comunidades vegetais rupícolas, que se desenvolvem nas escarpas rochosas, nos paredões de cachoeiras, nos lajeados do rio das Furnas e sobre matacões rochosos no interior das florestas. Algumas espécies foram registradas somente nestes ambientes sendo, provavelmente, exclusivas. É o caso de Gaylussacia sp., Myrciaria sp., Campyloneuron sp. e Epidendrum ellipticum. As três primeiras ocorrem somente sobre as rochas do rio das Furnas e seus afluentes, enquanto que a última ocorre nos paredões verticais das escarpas. Ao total foram identificadas 33 espécies que crescem sobre substrato rochoso, sendo a grande maioria caracterizada como facultativa, podendo ocorrer como terrícolas, epífitas ou rupícolas. Menção especial deve ser feita à espécie Gunnera manicata, que forma densas populações nas paredes úmidas das escarpas verticais, conferindo aspecto fisionômico muito típico.


Fauna


O presente capítulo compreende o diagnóstico da fauna enfocando principalmente aves e mamíferos da RRF, com base em dados coletados durante a fase de campo realizada em outubro de 2009. A seguir são apresentadas informações gerais sobre os dois grupos faunísticos estudados.


Aves


A avifauna é um grupo bastante utilizado em diagnósticos ambientais devido às respostas que podem proporcionar em relação ao estado de conservação ou uso da terra sob diferentes situações. No entanto, apesar de ser um grupo faunístico bem estudado, as informações disponíveis em muitas regiões são escassas. No caso do estado de Santa Catarina, os esforços de pesquisas ornitológicas não foram muito intensos se comparados a
outros estados brasileiros. Após passagens esporádicas de alguns naturalistas no passado, em 1978 foram iniciados estudos através da Fundação de Meio Ambiente (FATMA-SC), sendo orientadas pela maior autoridade da ornitologia brasileira, Dr. Helmut Sick. A partir desta data, os trabalhos de campo foram intensificados, o que permitiu um primeiro mapeamento da avifauna do Estado, sendo citado um total de 596 espécies para Santa
Catarina (ROSÁRIO, 1996). Estes dados foram obtidos mediante pesquisas em campo, pesquisas bibliográficas e consultas em vários museus, e atualmente, com o esforço de um maior número de pesquisadores, este número certamente é maior.


Infelizmente, ao mesmo tempo em que informações biológicas começaram a ser coletadas, o Estado sofreu uma grande exploração, principalmente de araucárias, o que dizimou imensas áreas cobertas pela Floresta Ombrófila Mista. A planície litorânea têm se tornado cada vez mais alterada e fragmentada com a crescente atividade imobiliária. Os últimos remanescentes de Floresta Atlântica aluvial e das terras baixas de Santa Catarina estão
sendo loteados em um ritmo bastante acelerado e algumas obras portuárias comprometem frágeis ecossistemas costeiros. Todos estes fatores são responsáveis pelo rápido decréscimo populacional de muitas espécies de aves e, se medidas conservacionistas não forem implementadas nas áreas naturais que ainda resguardam características originais da biota original, muitas espécies estarão em alto risco de extinção local em um futuro próximo. Diante deste fato é extremamente importante a manutenção de remanescentes naturais por parte da iniciativa governamental e também particular.


Mamíferos


Os mamíferos são animais que têm como principal característica a presença de glândulas mamárias, desenvolvidas para produção de leite, utilizado na alimentação dos filhotes. Além disso, possuem capacidade de manutenção da temperatura corporal (como as aves), corpo coberto de pêlos, desenvolvimento dos filhotes dentro do corpo materno e cuidados parentais prolongados. Algumas características, no entanto, conferem maior ou menor vulnerabilidade ao meio em que vivem, como dimensão corporal, organização social, tamanho de populações naturais, distribuição geográfica, especificidade de habitat e especificidade alimentar.


As informações relacionadas aos mamíferos em Santa Catarina são escassas, sendo a primeira compilação efetuada por Cimardi (1996), que apresentou dados sobre a riqueza de espécies existentes no Estado, sendo posteriormente complementada por Cherem et al. (2004). Segundo os autores,são conhecidas 169 espécies (CIMARDI, 1996), além de outras 59 de possível ocorrência (CHEREM et al. 2004).
Segundo a classificação de Cabrera e Yepes (1960), em relação aos mamíferos a área de estudo está inserida na sub-região Guiano-patagônica, caracterizada zoogeograficamente pela ocorrência de gêneros exclusivos desta região como Chironectes e Philander (Didelphimorphia), Desmodus e Noctilio (Chiroptera), Myrmecophaga, Tamandua e Bradypus, assim como Priodontes e Cabassous (Xenarthra). Dos onze distritos pertencentes a esta sub-região, a RRF pertence ao Tupi, que se caracteriza principalmente pela ausência de espécies com ampla distribuição em distritos contíguos como os primatas dos gêneros Aotus e Ateles.


A avifauna da RRF foi analisada tendo como base dados coletados em um levantamento das espécies ocorrentes na área e informações acumuladas ao longo de cerca de sete anos pelo proprietário Renato Rizzaro. A fase de campo teve duração de quatro dias e o esforço amostral totalizou 40 horas de observação.


Mamíferos


A avaliação da composição de mamíferos da RRF baseou-se em informações obtidas durante a realização de uma fase expedita de campo com dois dias de duração. Durante esta fase algumas trilhas existentes no interior da propriedade foram percorridas em busca de evidências diretas (visualização e vocalização) e indiretas (pegadas, amostras fecais, restos alimentares, tocas, pêlos, entre outras) das espécies que habitam a propriedade ou a utilizam como parte da área que ocupam. Informações bibliográficas foram consideradas, e entrevistas com os proprietários e com vizinhos próximos a RRF também foram realizadas.
Como inventários de mamíferos requerem grande disponibilidade de tempo em campo e equipamentos apropriados, cuja utilização não foi possível devido ao caráter expedito do trabalho, os resultados aqui apresentados são preliminares, mas refletem com veracidade a riqueza de mamíferos de médio e grande porte que possam utilizar-se da área. Como os mamíferos de médio e grande porte, representam apenas 27% da mastofauna potencial (FONSECA et al., 1996), pode-se afirmar com certeza que a riqueza e diversidade de espécies de mamíferos como um todo está subestimada, devendo ser direcionados esforços para a obtenção de dados referentes aos pequenos mamíferos.


Análise das informações obtidas


As espécies de mamíferos registradas na RRF são na grande maioria de alta plasticidade ecológica (73%), o que significa que conseguem se adaptar com facilidade aos distúrbios do meio. Grande parte delas apresenta tempo de desenvolvimento curto, com esforço reprodutivo e mortalidade elevados. São generalistas em relação ao habitat e à alimentação. Este fato deve-se principalmente à amostragem estar voltada a espécies de médio e grande porte, que possuem maior capacidade de deslocamento que aquelas de pequeno porte. Os pequenos mamíferos (morcegos, roedores e marsupiais) não amostrados no atual estudo, dão uma resposta mais direta em relação aos impactos efetuados sobre o ambiente onde vivem, seja pela sua presença/ausência, seja pela sua abundância. Espécies de baixa plasticidade, que são mais exigentes em relação às características ecológicas das áreas onde vivem, representam 9% do total registrado. Pertencem a este grupo a paca (Cuniculus paca) e a jaguatirica (Leopardus pardalis), que requerem áreas com menor grau de alteração e evidenciam a importância da área e seu contexto para a manutenção de espécies-chave.
Com relação à pressão de caça, 36% das espécies apresentam alto interesse cinegético. Estão nesta categoria principalmente alguns macro-roedores (paca e cutia) e tatus, além dos felinos que são bastante perseguidos. Estas espécies encontram-se, então, sujeitas a pressões de caça constantes, sendo este o principal fator de impacto à sobrevivência das populações locais.


Com relação à alimentação, os invertebrados são consumidos por 10 espécies de mamíferos, os vertebrados por nove espécies, os frutos por oito, as sementes por sete, as raízes e os brotos por seis, as folhas por cinco, os detritos por três, e sangue e peixes por uma espécie de mamíferos. Com relação às espécies registradas, pode-se observar o elevado percentual de espécies não citadas sob nenhuma lista de espécies em risco de extinção: 72% em nível nacional e 86% em nível global. Segundo Machado et al. (1998), publicações sobre espécies ameaçadas de extinção em nível estadual são comuns em vários países e importantes para a proteção do patrimônio natural de cada estado. Além disso, contribuem para a conservação da biodiversidade do país, uma vez que, do ponto de vista genético, as populações de uma mesma espécie não são iguais em regiões diferentes. Desta forma, a ausência de uma lista oficial em Santa Catarina dificulta a implantação de programas de conservação específicos para aquelas espécies com maior grau de comprometimento.


Além das espécies citadas como ocorrentes na propriedade, outros dois mamíferos não contam atualmente com nenhum tipo de registro na propriedade. Trata-se do cateto (Pecari tajacu) e do veado (Mazama sp). A ocorrência pretérita de catetos na área foi citada por um vizinho; é uma espécie gregária facilmente observada nas áreas onde ocorre pelo grande número de pegadas que deixam em trilhas, estradas e carreiros em meio a vegetação nativa, além de barreiros. A caça costuma ser o principal fator de impacto em suas populações, principalmente em áreas de menor tamanho e com falha na conexão da paisagem. Outro morador próximo relatou que um veado, possivelmente Mazama gouazoubira pela descrição, era freqüentemente visto circulando em sua propriedade mas acredita-se que tenha sido morto, pois após o atropelamento de um cervídeo na rodovia,
cuja carne foi consumida por moradores locais, o espécime não foi mais visto no local. Os veados também são espécies de alto interesse cinegético. Outro morador próximo relatou que um veado, possivelmente Mazama gouazoubira pela descrição, era freqüentemente visto circulando em sua propriedade mas acredita-se que tenha sido morto, pois após o atropelamento de um cervídeo na rodovia, cuja carne foi consumida por moradores locais, o espécime não foi mais visto no local. Os veados também são espécies de alto interesse cinegético.
Embora parte da área tenha sido transformada em RPPN e seja tratada como tal em sua totalidade, o histórico de ocupação e as interferências no entorno certamente comprometeram a ocorrência de algumas espécies. No entanto, as ações que vem sendo adotadas pelos proprietários no que diz respeito a recuperação e conservação da área, são fundamentais para garantir a ocorrência das espécies atualmente presentes, melhorando as suas condições de sobrevivência e incremento populacional.


Características gerais da avifauna: riqueza de espécies


O diagnóstico da avifauna, complementado pela listagem construída com base em anos de observações do proprietário Renato Rizzaro, indicou a presença de 236 espécies de aves silvestres com ocorrência confirmada para a RRF, pertencentes a 49 famílias e 19 ordens. O total das espécies encontradas no estudo representa 39% da avifauna conhecida para Santa Catarina, conforme Rosário (1996). Os Não-Passeriformes estão representados por
96 espécies, correspondendo a 42,37% do total registrado. Os representantes da ordem Passeriformes, por sua vez, somam 136 espécies, o que corresponde a 57,62% do total. Do total de 1825 espécies de aves que ocorrem no Brasil, 234 táxons são endêmicos, ou seja, encontrados somente em território nacional (CBRO, 2009). O presente estudo verificou a presença de 11 espécies endêmicas do Brasil, o que equivale a 5,5% do total de espécies registradas na RRF: Brotogeris tirica, Lophornis magnificus, Clytolaema rubricauda, Merulaxis ater, Leptasthenura striolata, Hemitriccus orbitatus, Knipolegus nigerrimus, Attila rufus, Carpornis cucullata, Lipaugus lanioides, Ilicura militaris, Tangara desmaresti e Poospiza thoracica.


Pesquisa e Monitoramento


Duas pesquisas completas já foram realizadas na área:


a) Biodiversidade de Basidiomycetes Lignolíticos em Santa Catarina, SC: Médias Altitudes de Mata Atlântica, Reserva Rio Das Furnas, Alfredo Wagner - Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Alice Gerlach, aluna da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), do curso de Ciências Biológicas.


b) Diversidade, Distribuição e História Natural de Serpentes da Região da Grande Florianópolis, SC. - Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Tobias Sariva Kunz, aluno da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), do curso de Ciências Biológicas. – A propriedade RRF foi um dos setores estudados no trabalho.
Além dos trabalhos acima mencionados, outros pesquisadores estiveram na área à procura de dados, como o caso dos pesquisadores Tracy Johnson do U. S. Forest Service e Marcelo Diniz da FURB (Universidade Regional de Blumenau), ambos estavam trabalhando em um projeto visando o controle biológico do Araçá (Psidium cattleianum), pois este vem sendo espécie invasora em outras partes do mundo como o Havaí.


Espécies de alto interesse conservacionista


As espécies de aves que compõem a lista da RRF são normalmente encontradas em áreas de ecótono entre duas formações florestais distintas: a Floresta Ombrófila Densa e a Floresta Ombrófila Mista. Dentre as 37 espécies que merecem destaque por serem aves incomuns ou com exigências ecológicas específicas, 15 táxons são considerados ameaçados ou quase ameaçados de extinção em nível nacional (MMA, 2003) e mundial (IUCN, 2009): uma em perigo (Aburria jacutinga), três vulneráveis (Amazona vinacea, A. pretrei e Procnias nudicollis) e 11 quase ameaçadas (Tinamus solitarius, Leucopternis polionotus, Picumnus nebulosus, Piculus aurulentus, Merulaxis ater, Leptasthenura setaria, Anabacerthia amaurotis, Hemitriccus orbitatus, Carpornis cucullata, Lipaugus lanioides e Cyanocorax caeruleus). Todas as espécies registradas que estão citadas na lista nacional ou mundial, assim como seus status, podem ser consultadas na Tabela 3.4 A lista nacional proposta pela Sociedade para a Conservação das Aves do Brasil (SAVE Brasil, 2008) segue os critérios adotados pela IUCN (2008).


Análise das informações obtidas


A composição da avifauna da RRF está relacionada aos ambientes associados às zonas de ecótono entre a Floresta Ombrófila Densa e a Floresta Ombrófila Mista. Apesar de diversas espécies aqui registradas habitarem em comum essas duas formações florestais, alguns táxons ocorrem preferencialmente ou exclusivamente em apenas uma das duas formações florestais citadas. Como exemplo de exclusividade da Floresta Ombrófila Densa, pode-se citar espécies como: o tucano-de-bico-preto (Ramphastos vitellinus), o entufado (Merulaxis ater), o capitão-de-saíra (Attila rufus), o corocochó (Carpornis cucullata) e o tropeiro-daserra (Lipaugus lanioides). Já as exclusividades da Floresta Ombrófila Mista podem ser ilustradas por espécies como o grimpeiro (Leptasthenura setaria), o trepadorzinho (Heliobletus contaminatus) e o sanhaçu-frade (Stephanophorus diadematus). Outras
possuem nítida preferência pela Floresta com Araucária, no entanto não podem ser consideradas exclusivas, como por exemplo, o papagaio-de-peito-roxo (Amazona vinacea), o beija-flor-de-topete (Stephanoxis lalandi), o pica-pau-dourado (Piculus aurulentus) e o bico-grosso (Saltator maxillosus).
A localização geográfica da RRF propicia o contato direto de avifaunas de duas formações distintas, o que reflete na riqueza encontrada na região. De acordo com compilações recentes (STOTZ et al., 1996; SICK, 1997), existem 682 espécies de aves registradas para a Mata Atlântica (sensu lato) e que segundo Brooks et al. (1999), 207 são consideradas restritas ao bioma, conferindo uma das maiores biodiversidades de todo o mundo.


Outro fator que contribui para que a composição da avifauna na área avaliada seja rica e diversificada, é a presença de campos rupestres na parte mais alta do cânion. Atualmente estes campos das propriedades vizinhas estão sendo ocupados e alterados pelos plantios de pinus, mas, originalmente, esta formação abrigava um elevado número de espécies de aves. Hoje, algumas espécies campestres que ainda podem ser observadas neste tipo de ambiente são: a cordorna-comum (Nothura maculosa), o perdiz (Rhynchotus rufescens), o cochicho (Anumbius annumbi), a maria-preta-de-penacho (Knipolegus lophotes), a mariapreta-de-garganta-vermelha (K. nigerrimus), a primavera (Xolmis cinereus), a andorinha-desobre- branco (Tachycineta leucorrhoa), o caminheiro-de-barriga-acanelada (Anthus hellmayri) e o pássaro-preto ou graúna (Gnorimopsar chopi). Foi observado que a área em recuperação já foi colonizada por um elevado número de aves que habitam exclusivamente ambientes florestais. A capoeira existente em grande parte da propriedade, especialmente nas proximidades do circuito principal de trilhas, está começando a se tornar uma fisionomia florestal e, diante disso, espécies que eram restritas às encostas da propriedade estão expandindo seus territórios. Com uma maior disponibilidade de habitat poderá ocorrer uma maior perpetuação de aves com menor plasticidade ambiental e maiores exigências ecológicas.


Educação Ambiental


A própria Reserva Rio das Furnas organiza muitas atividades de educação ambiental, tanto com escolas como com a comunidade do entorno. Parte das atividades é realizada sob demanda, ou seja, por intermédio do interesse da comunidade, que a Reserva procura atender, de acordo com as suas possibilidades. Exemplos disso são visitas à propriedade, como a realizada pela 4ª série da Escola Reunida Balcino Matias Wagner em setembro de 2007, assim como a parada de 7 de setembro daquele ano, quando estudantes da Escola Estadual de Educação Básica Silva Jardim desfilaram levando nas mãos fotos da Reserva.
Outras atividades são desenvolvidas por iniciativa e vontade da própria Reserva e de seus proprietários. Entre essas, destacam-se as atividades regulares desenvolvidas na Escola Isolada de São Leonardo e no PETI – Programa de Erradicação do Trabalho Infantil de Alfredo Wagner, além de exposições, oficinas e mostras organizadas pela Reserva.


Algumas dessas atividades encontram-se descritas a seguir.


a) Na Escola Isolada de São Leonardo: os proprietários realizam atividades com os 15 estudantes dessa escola multisseriada (1ª a 4ª série), localizada na comunidade de São Leonardo, mensalmente desde 2003. O objetivo do trabalho é propiciar conhecimentos sobre os elementos naturais da região, de maneira a fazer com que a sua relação com o ambiente local seja de respeito e cuidado. Os temas trabalhados referem-se, assim, aos elementos naturais com os quais os estudantes convivem no cotidiano. As principais atividades realizadas na escola foram:


• Projeção de slides com o tema Nossa água. A idéia foi mostrar vários ambientes, como geleiras, rios, manguezais, formações que culminaram com a apresentação da Vila de São Leonardo, com fotos aéreas da região. A Secretaria de Educação apoiou a atividade;


• Identificação das principais aves da região e seus hábitos de vida, com a utilização de fotos tiradas pelo proprietário (Caixa de Aves);


• observação de aves com binóculos doados pela Royal Society of the Protection of Birds, por intermédio da Sra. Ethne Conlin, inglesa, amiga dos proprietários;


• montagem e distribuição de cadernetas de campo com fotos das crianças junto a pássaros na capa;


• montagem de pôsteres fotográficos das crianças da escola;


• elaboração de mapa da Vila de São Leonardo, no qual os estudantes foram incentivados a desenhar os pássaros avistados no local, e que foi utilizado pela professora para diferentes trabalhos em sala de aula;


• visita dos estudantes à Reserva Rio das Furnas;


• visita dos alunos e alguns pais à caixa d’água e à estação de tratamento que abastece cerca de 30 casas da Vila de São Leonardo.


b) No Programa de Erradicação do Trabalho Infantil de Alfredo Wagner (PETI): mantido pela Secretaria de Ação Social, esse Programa reúne crianças no contra-turno da escola, com atividades diversas, visando evitar o trabalho infantil no município. A Reserva Rio das Furnas, assim, no ano de 2006, passou a realizar mensalmente atividades educativas com os participantes do programa. O trabalho começou com a confecção de flautas de bambu, no intuito de ganhar a confiança das crianças e poder iniciar um relacionamento informal visando identificar os seus principais focos de interesse. Em uma das conversas os alunos demonstraram muita curiosidade por ninhos que existiam no telhado e em árvores próximas à sede do PETI. Isso levou à realização de atividades de identificação e observação de aves com esse público, através de fotos tiradas pelo proprietário da Reserva, utilizando-se a Caixa de Aves. Além disso, outras atividades já realizadas na escola de São Leonardo também foram aplicadas com esse público, como a montagem e distribuição de cadernetas de campo com fotos das crianças e de pássaros na capa, e a visita à caixa d’água que abastece o PETI e seu sistema de tratamento, dentre outras.


c) Oficina de Tambores: o grupo Balakubatuki, de Florianópolis, que trabalha com crianças em risco social por meio da música, utilizando instrumentos de percussão feito com materiais reciclados, foi convidado pela Reserva Rio das Furnas, com o apoio da Secretaria de Educação do município, para realizar uma oficina de música no município. Alunos da Escola de São Leonardo, assim como do PETI puderam participar da oficina.


) Mostras e exposições: fotografias da Reserva tiradas pelo proprietário, que é fotógrafo profissional, foram o foco de muitas mostras e exposições realizadas em Alfredo Wagner e em outras cidades, como Blumenau (Museu de Arte, Shopping Neumarkt e FURB) e Rio do Sul. Amplamente divulgadas na mídia local e estadual.


e) Fomento e apoio à criação dos Conselhos de Turismo, Cultura e Meio Ambiente.


f) Realização de reuniões com a Prefeitura de AW, visando à implantação do Programa Lixo Zero.


g) Participação no Atlas Escolar Ambiental de AW, trabalho realizado pela UFSC, por meio do programa de mestrado do curso de Engenharia Ambiental – 2008. O material foi distribuído para as escolas do município e para a Biblioteca Municipal.


h) Implantação e coordenação do site www.capitaldasnascentes.org.br.


i) Implantação e coordenação do site www.riodasfurnas.org.br.




Fonte: Plano de Manejo da Reserva Rio das Furnas, executado pela Sociedade Chauá, contratada pela SPVS, em 2010.







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